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A terceira realidade

Acordei com uma febre que não é no corpo
Contra a ciência dos fatos nada posso argumentar Abri as janelas, estendi segredos ao sol
para afastar o mofo das minhas esperas O vento que os leva nos chama para a rua tudo é tão possível e só há uma vida! O termômetro não mede essa inquietude a vontade aguda de encarnar histórias de viver tudo, ser total ou de tão simplesmente segurar-te entre os dedos
tocar a eternidade
dissolver-me em brasa e abrir mão do que tem por haver. Sem qualquer piedade o dia se ergue
cobrando a objetividade de seus enfins Em protesto eu-comigo fecho os olhos para despistar a claridade
para enxergar o real que me faz desperta
Da costela do impossível o poema nasce
e o verbo que não se faz carne
também habita e ronda os azuis
Entre o que é e o que não pode ser
há uma terceira realidade
pois é dela que eu vivo
e inauguro a manhã




Postagens recentes

Lusco-fusco

Meu corpo é convocado e responde
dobro os joelhos sem dor
tenho dentes que quebram torresmos
e a saliva não erra seu destino:
Sou jovem.
Mesmo com tamanha oportunidade
e com os rumores de que rouba-me isso a morte
Desperdiço sábados,
preocupo-me com muitas opiniões.
Sem falar no receio
de não ter filhos,
de falar a verdade
de ir antes de realizar
Aquela grande coisa.
Procuro seus olhos baixos
profundos como a terra:
É velho.
O que em mim é etéreo, ânsia,
em ti encarnou.
Sem falar nada, diz que suportou
a rapidez com os que as crianças crescem,
os longos minutos dos velórios.
Não há dignidade maior
do que sobreviver ao que se vive
E ser aquilo que antes foi promessa.
Por mais que queiramos,
seu conselho não me salva,
meu consolo não te alcança
não se encara o que não é
ninguém pisa fora do próprio caminho.
Ah! Se nos despíssemos de nossas idades,
do peso do tempo que encurva as colunas,
flutuaríamos
Se nos fitássemos
na mesma altura dos olhos
que o puro agora permite
cairíamos em um ri…

Maternidade

Minha mãe cozinha como quem reza
Com a ancestral engenhosidade humana
De transformar a terra em algo profundo
Agarra a couve com tal devoção
que nenhuma folha escapa
de virar arte em verde irreplicável
Do seu altar de temperos serve-me
o seu sagrado e diário milagre
Seus olhos querem uma resposta
com a ansiedade de uma estreia
Como se perguntassem na verdade
se conseguiu amar-me
até o último átomo
com a sua oferta
Ah, mãe!
Se até o bicho para vingar primeiro é cria
Fui feita fome antes de ser feita gente
E você quem saciaste inaugurando outra
a minha fome de ser gente
e transformar a terra em algo profundo
O animal come e dorme
O humano que come também pode louvar
"Se o que toco neste prato não é o próprio Deus
Nada no mundo chegará tão perto"
E fechar os olhos como quem, farto, repousa
Porque entendeu a oração

Com todo respeito ao silêncio

Envergonho-me
diante do que em mim
é maior que eu
Giro os pés como um tímido
o adolescente cuja voz não está pronta
e sai alta e fina
assustando os pássaros
Digo
e o corpo responde torto,
as pernas tremem,
como se engolisse um cometa
chacoalhando os ossos
Mas o amor que sinto
a graça de estar viva aqui
e não lá, em outro momento
não cabe ficar dentro
arrastando as vísceras
É assunto para a vida inteira
de vãs tentativas
Dizer é só aproximação
esboço do que se revela
no clarão dos tempos
Sem pena a morte virá
na véspera de uma palavra
cerrando os olhos,
roubando a voz
Enquanto a tenho,
sem ser minha,
vou falar
Inexata e imperfeita
Porque ao redor do que eu digo
- secreta doçura -
Tudo é Deus
e me consola.

Obsessão

Pensei em você até te gastar
Meus dedos ficaram dormentes
como quando em água por muito
murcham feito maracujá
comi maracujá, manga
e aquela maçã
pensando-pensando
(diacho!)
nada tinha gosto
mordida por mordida
no que não era sua carne
era quase nada
tenho fome da fome
não da saciação
engasguei a fruta e a palavra
que eu não disse
(covarde!)
tossi feito louca
acordei a vizinhança
que agora sabe de tudo
que nem eu mesma sei
doma-se a ação
não o desejo
enquanto eu não te vejo
te limpo cinquenta vezes
nos fiapos entre os dentes
e você não sai
mas quando eu te vir
vou te morder feito bicho
(às vezes detesto ser gente)
pra ver se o gosto da fruta volta
e eu possa viver em paz

Poema de desesconder

Explode tua exuberância
rompe a casca - fina ou grossa
que te segura e te estanca: sê 
Nasce de ti 
cotidianamente
até que morras
Sem morrer 
porque da explosão 
a mancha 
o rastro
marcam o sempre
e quem passar por ti
mesmo que tu não estejas
reconhecer-te-ás
Há quem te acolha
em teus infinitos nascimentos
outros estapear-te-ão 
para que chores e proves que vive
Nenhum deles terá razão total
a te eximir de dar tua versão do que és
A vida fará perguntas 
não deixarás de ser livre
mesmo que escolha acorrentar-se
Respira, sorve goles de vento, e vai! 
Rompe as vísceras! Aparece!
Nua, desprotegida
como viestes ao mundo
e como nele permaneces
Não te adornes
não te encurves 
tentando proteger os seios e o ventre
Ergue-te
Encara o sol que te aquece e te cega
e que nascerá amanhã
mesmo que não tu não queiras 
Oferece tua palma à gota que chove
Fecha a mão e os olhos
Ajoelha
Deixa-te escorrer 
E entrega-te
ao útero do pleno amor
A firmeza com que vives dentro de ti não é tua
Nem é tua a força que te põe para fora

2ª carta para a minha avó (ou pedaços de vida e morte)

O que faz de um sorriso um sorriso não é a simetria da dentição ou sua branquetude escovada. É algo além dele próprio. Iluminura que a vida deixa de rastro num rosto. Isto aprendi com a senhora, vó, com seus olhos gargalhantes. É muito mais difícil sorrir sem dentes porque aí não dá pra dissimular muita coisa. A transparência o revela em sua essência. Pois acontece que toda santa vez que atendo uma paciente banguela, vó, a saudade me abraça. Saudade tem braços delicados mas aperta com valentia. Moça feita de passado mas que tem pacto é com o presente. Se a saudade falasse de coisas idas, ao olhar para aquelas senhoras hoje eu não reconheceria o seu sorriso. Nada de significativo, de fato, se tornaria nosso. Triste, não é? Ainda bem que ela existe!     Pois a saudade tem me contado algumas coisas. Uma delas é que a senhora fez um grandecíssimo trabalho. Eu não sei o que você colocou no leite dos seus filhos, naquela pobreza desgentil da roça, que nutriu e fez crescer tanto o coraçã…