Pular para o conteúdo principal

Coração em Divinópolis

Sento-me à beira de mim
e observo o que fui
no rio que flui
a minha vida

Só para frente
É que se vai
Enquanto uma lágrima cai
lembrando a tarde ida

Tão pequena és
Dentro do rio e da tarde
Como em meu rosto arde
Com tanto sal e sem saída?

O protesto em água doce
Leva o fio d'alma que escorre
E quando toca o rio morre
A despeito da face traída

Sou tão menor que o rio
Queria ficar mas não posso
'Que nesse destino nosso
Todo encontro é despedida



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Nada rima com angústia

São 18h40 no centro da capital. Luzes, buzinas, e o irritante, insuportável anda-e-para da minha condução. Pior ainda para o motorista, eu penso. Aquele cansaço, a vontade de chegar, a esperança de engatar e para. De novo. O homem, muito esperto, criou máquinas que fazem andar, mas agora não chega mais a lugar algum. Vida irônica, eu penso. E paro. De novo. Do meu lado, uma mulher me acotovela sem querer, mexendo na bolsa. Eu odeio a mulher. Eu queria que aquela mulher não existisse. Eu queria que ninguém existisse, que as pessoas de repente sumissem, todas à minha frente, de todos os carros, os que estão a pé também, para que eu pudesse fluir. Meu Deus! Eu não estou fluindo. Minha vida parece a condução em que me encontro: anda-e-para. Aquele cansaço, a vontade de chegar, a esperança de engatar... e para. De novo. (...) Nada rima com angústia, penso de repente. An-gús-ti-a. Não pode ser à toa que nada rima com ela. Angústia é dor cega e sem par, à procura de ancoragem na palavra....

Carta para minha vó (ou pedaços de vida e morte)

Ah, vó! Eu queria colocar minha história em linha reta, num desenrolar bonito e colorido. Mas ela fica num emaranhado do qual só apanho alguns pedaços. Na verdade os pedaços é que me apanham. Divinópolis virou um precipitado de lembranças grossas, que se acumulam em nuvem, carregam o céu. Quando venho aqui, não sei dizer se quem chove sou eu ou a cidade. A Morte, maiúscula, te levou daqui, e ela, que desabou meu edifício com tudo dentro, serviu para tornar visível a morte, minúscula e imperceptível a olhos menos atentos, que exerce seu ofício de cupim e corrói as paredes com paciência. Mas meus olhos sempre foram atentos. Desde antes de a senhora partir, Divinópolis me é nuvem carregada, porque aqui eu quase consigo tocar com a mão as mudanças que o tempo traz. Sempre temi a Morte maiúscula que a morte minúscula anunciava: o cachorro ficando cego, cada vez menos galinhas no quintal, o vizinho que era criança (eu juro que era!) tendo filho, a careca mais vistosa na cabeça do meu pai. N...

Meu guardião

Não sei exatamente como a proximidade se deu, como nesses encontros em que nos deparamos de repente dentro e, fazendo tão parte de nós, não vemos início - nem fim, apenas existem. Eduardo existe em mim hoje, em um espaçoso e confortável lugar, onde, quando ele se ausenta, me refugio com a lembrança de sabê-lo ali e sinto uma gratidão profunda. Eduardo é uma das pessoas mais bonitas que eu conheço. É um rapaz que atrai olhares e faz bem aos olhos. Seu queixo imponente de homem abriga a barba pouca que cresceu meio sem rumo, pouco convincente, não negando a ele seu ar de menino. Olhos, nariz e dentes formam uma coisa harmoniosa. Não é alto e nem baixo demais; não tem obsessão por arquitetar músculos, o que muito me agrada, por assim não estragar a composição natural com um jeito que poderia soar falso. Porque Eduardo tem a beleza das coisas humanas, que simplesmente são. Ele foge das convenções sociais, onde a beleza se esforça para ser bela. E isso diz do que é bonito por dentro ...