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No olhar da Cinderela - parte II


O medo, o medo redigiu-se ínfimo olhando aquele corpo de mulher. Poderia ser apenas mais uma, poderiam ser todas em uma só. O feminino em pele, cheiro e respiração. Ele percebeu a dádiva de poder contemplar outro ser humano tão perto e tão irreversivelmente longe. Aproximou-se gatunamente e declarou-se dela o súdito da noite. No meio daquele vai-e-vem universal, inevitavelmente, os olhos se encontraram: ela percebendo que desejava mais ardentemente ser vista do que fodida, ele que sem conseguir decifrar aqueles olhos súplices não a via. E foi dentro daqueles olhos que desenhou-se a histórica trágica.

Ele, enfim, dormiu apático na noite segredosa e cálida. E somente a noite era capaz de saber se a indiferença era uma defesa para a sua confusão. Ela despertou-se tímida, sóbria e estranha e sabia que não era pela droga que sentia-se tão pesada que mal pôde levantar. Era pela constatação que tivera naqueles olhos, quando o descanso de ser si mesma acabou-se em um átimo, sem que ela pudesse se preparar. A alma alcançando o corpo pesava-o mil vezes mais e ela só conseguia pensar que era vítima feita do seu próprio desejo.

O corpo alcançando a alma fez com que fugisse dali tão rápido que nem reparou que deixava para trás os óculos. Caminhando em passos tétricos, mal sabia que protagonizava uma versão menos mágica de sua história infantil favorita. Mas se não pensara em príncipes naquele momento, ousou pensar em amor. Em sua mente, épico, agora transformado em jogo cínico. Percebia, enquanto andava, que nunca acharia alguém que a enxergasse por inteiro, porque nem ela mesma conseguia.  Será o amor esse não ver tudo mas escolher ficar com o que se vê? Aos poucos se dava conta, também, que ninguém viria para salvá-la de si mesma, porque estava destinada a ser, para sempre, dela. E pensava que amar deveria ser algo como aceitar não ser salvo, junto, porque quando um se distraísse de ser o outro estaria olhando. E vendo. Por fim, ela admitiu que não sabia o que era o amor; apenas tinha certeza de que não era aquilo que ficara em seus olhos.

Enquanto ela já estava longe, ele despertava em sua cama. Para ele, uma transa típica: o ácido e a vontade, o gozo e o espaço vazio no lençol empapado. Ele só não entendia por que não esquecia aqueles olhos e o enigma daquela súplica. Aos poucos foi percebendo que havia um pedaço dela que nunca sairia de si. O outro sempre fica em nós, era do que ia se dando conta: a próxima nunca é tão distante da anterior. Será o sexo, por mais fulgurante que seja, uma forma de amor? O amor em seu formato mínimo? O corpo se expressando clínico, enquanto a alma vigia tudo? No meio da divagação, o celular tocou, pulverizando o que sobrou da noite: era o seu Relacionamento Aberto. O seu... amor? Aquela palavra não se encaixava direito, a equação, por alguns algarismos, parecia não bater. Aquele telefone tocando era a rubrica de sua triste solidão, a incógnita que faltava, mas isso ele não percebeu. Depois de alguns toques, deu coragem ao gesto de atender e passou toda a conversa fitando um par de óculos sobre a mesa.

Ao contrário dela, ele está até hoje procurando alguém que o salve de si mesmo. Enquanto não encontra, mantém a equação, meio torta, como está. Ela está livre. Ele não.

Comentários

  1. Que lindo Marcela.. Amei! Pareceu um conto "infatil" às avessas que não é tão às avessas assim. A moral no final, os acontecimentos, tudo remete a um faz de conta e logo em seguida a realidade, o que leva a pensar que no final a verdade e o faz de conta ocorrem simultaneamente no nosso dia-a-dia. Não se pode viver só de um ou só de outro.

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  2. Gabriel, seus comentários engrandecem tudo por onde passam! :)
    Concordo com você, meu amigo! Saudade...

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  3. Foi feito pra mim? rsrs
    Menina linda! Menina do mar!
    Você conhece o mundo!
    E os livros são tão importantes!
    As pessoas gostam de livros! AS pessoas românticas como nós, não se esqueça disso!
    E eu sempre te apoiarei a escrevê-lo!
    SEMPRE!!! SEMPRE!
    E se você não escrever vou pegar sua autorização e fazê-lo por si...
    AS vezes a gente não quer conhecer de onde veio a história.. só quer escutá-la... mas dessa eu tive a curiosidade... foi tão profunda...
    Se você quiser conversar comigo iria me fazer bem... e talvez pra ti também!
    TE AMO peixinha.. beijinhos com carinho

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