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No olhar da Cinderela - parte I



Começou de súbito, como sempre começa. A embriaguez corta o fio que leva um momento a outro: todas as coisas começam de súbito.  A festa estava mesmo ótima. Estava? Ele passeava nos quatro cantos de si procurando saber se ali era um bom lugar e o olhar da moça parecia confirmar que sim. Ela, estreando seu vestido de caveiras cujo fim ficava no limite entre o poder e a vulgaridade (mundo machista de merda!), não dava atenção ao pensamento que sussurrava que queria estar em casa no sofá – se não viesse da própria cabeça, viria do pé, apertado sem escrúpulos dentro do scarpin. Ela procurava um príncipe – se assim for chamado aquele que a olharia por inteiro e enxergaria o seu sorriso de um jeito que ninguém mais. Ele procurava a próxima que ocuparia o pequeno espaço do coração que reservara às próximas, enquanto o resto do latifúndio estava fechado para um Relacionamento Aberto.

Ele reparou nos óculos e em como gostara de garotas míopes desde o colégio. Ela reparou nas vírgulas, nos pontos finais e reticências, na tentativa de captar naquelas palavras e silêncios se seria ele quem viria salvá-la de si mesma. Tentando superar a montanha de medo e ansiedade que se interpõe no caminho de conhecer outro ser humano, ele ofereceu-lhe um ácido e ela achou aquilo o máximo – em parte porque queria superar a mesma montanha e em parte (talvez a mais importante) porque queria não pensar.  “Não podemos deixar de sermos nós mesmos nem apenas um minuto?”

Começou de súbito de novo: talvez não se possa dizer que se beijaram, mas os lábios se tocaram, ásperos, em beijos de tirar o fôlego. Era tanta a necessidade de se sentirem vivos, que para isso matavam alguma coisa dentro deles que mal se davam conta naquele momento. Cortado o fio do momento anterior, ela abriu os olhos e se viu em uma casa vazia, e antes que pudesse passar para a voz a interrogação de sua mente, foi entrelaçada por braços fortes.

No tirar de cada peça de roupa, os pensamentos também pareciam se despir e a nudez do momento revelava: “nós não nos conhecemos”. Esta sóbria constatação misturava-se com o frenesi, o ácido e a vontade, e o resultado foi que, tímidos, transaram trôpegos e, ávidos, gozaram rápido. Ela, na verdade, ficou sem saber se aquele era o gozo ou o imenso desejo de que fosse um, mas isso, no momento, não importava. Ela estava descansando de ser si mesma por um minuto.

Enquanto ela flutuava lépida, ele procurava álibis; um a um os pensamentos voltavam a se vestir: “isto não significa nada, ela é só a próxima”, “Faz parte do meu Relacionamento Aberto e a outra não pode sofrer ou me cobrar por nada já que...”. Mesmo que todas as justificativas coubessem, havia um incômodo que não cabia junto por não fazer parte das regras e ele sucumbia ao pânico de não ter controle sobre si mesmo. De súbito, vestiu a calça, sem entender bem o que significava aquele gesto. “A outra, a outra... quem é ‘a outra’ agora?”, ecoava no fundo de si enquanto observava que ela descansava lívida.

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