Pular para o conteúdo principal

De repente

Geralmente, o vento da inspiração bate, colho meus pensamentos maduros e escrevo. Hoje não. Hoje não bateu vento algum e talvez “maduros” seja a palavra menos correta para definir meus pensamentos agora. Por que, então, me atrevo a antecipar o tempo da colheita? Por que ouso me debulhar nessas linhas? Porque de repente descobri que esses tais pensamentos, ainda verdes, precisam ser colhidos já, com uma estranha certeza no fundo de que eles nunca amadurecerão. Escrever agora foi a porta de saída que encontrei quando, no escuro, comecei a tatear as paredes; o buraquinho improvisado que fiz para poder deixar minh’alma respirar. Eu queria ter mais certezas, mas elas, escorregadias, parecem escapar por entre os dedos todas as vezes em que tento pegá-las. De repente eu queria ter um chão firme sob os pés, como um artista de circo que cansou de andar no arame. De repente não há remos suficientes para tocar o barco, nem sei ao certo como deixar o edifício de pé. De repente o que eu escrevo parece não sair de mim. Mas, não de repente, há algo que descobri em meio a sentimentos tão esparsos e confusos: a necessidade que tenho de esbarrar minha alma 'n’outra. Chamem de carência o que eu chamo de incapacidade de ser sozinha. As pessoas que estão perto de mim – com todas as maneiras de que se pode estar perto – alimentam o meu viver. Uma ligação antes de dormir, um abraço sincero logo pela manhã, um jeito com que alguém sorri com os olhos, enchendo de cores o dia cinza; um diálogo sem palavras, o encostar o ombro em alguém que nada diz, mas que deixa seu coração à mostra, e que em cada batida parece dizer “Eu estou vivo, e estou perto de você” - qualquer vestígio de amor me deixa extremamente mais confiante, e grata. A capacidade que o nosso coração tem de, elástico, habitar tantos outros corações, e amar, todo dia e tanto e sempre, me faz aceitar o oceano à minha frente, as rachaduras provenientes da péssima engenharia de mim. De repente, percebo que talvez seja o amor a flor que sempre colherei, sem medo de estar sendo precipitada ou vagarosa demais, porque ele me faz aceitar a confusão, o medo, a ansiedade. Ele é o que há de fixo em meio a tudo que se mexe dentro de mim agora, o ponto certo na incerteza. Não há um tempo de colheita para o amor, descobri. E talvez seja por isso que escrevo e transcrevo esses pensamentos estranhos, que de verdes não estavam prontos para serem colhidos, mas foram, e que fazem esse texto acabar assim: de repente.

Comentários

  1. O amor é o que temos de fixo em meio à tudo que se mexe dentro de nós. Isso, possivelmente, é universal. Difícil descrever o quão boa foi essa definição (?) ou característica (??) desse sentimento.

    Se você diz que esse foi o seu pior post, recolher-me-ei à minha insignificância.

    ResponderExcluir
  2. Mar...
    você sempre me faz tão bem...
    fico feliz só de ler teus textos..
    e o Pequeno Principe...agora te entendo (nunca tinha lido né...)
    agora te entendo...
    beijo...otima semana!! quero te ver =/

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Digital

antes de ir embora o sentimento se demora e fica curtido no corpo, fermentando os sentidos. a retina o projeta nas esquinas do mundo. carros como o seu são os mais salientes das ruas, cheiros da vida acordam obscenidades, a imaginação percorre o que antes andei com a carne e o coração. pensamento garimpando lembranças no meio do trânsito, ou tirando o lixo, ou fechando a janela do quarto por onde você gostava de olhar - vai chover e não é pouco. eu quis muito. e o querer abrasa o corpo e o consome, o dia-após-dia do depois é para sua reconstituição. para onde será que você está olhando agora? alguém me chama e fura a bolha do pensamento, respondo o mais educada que posso mas queria responder era nada. não, não é que eu tenha te querido tanto assim o tempo todo, o sentimento não se espalhou de um jeito uniforme - é que eu queria também o que a ideia te ajudava a ser, aquele que colocaria em riste meus anseios, nossos pequenos futuros pareados que foram raleando, raleando antes. ...

Nada rima com angústia

São 18h40 no centro da capital. Luzes, buzinas, e o irritante, insuportável anda-e-para da minha condução. Pior ainda para o motorista, eu penso. Aquele cansaço, a vontade de chegar, a esperança de engatar e para. De novo. O homem, muito esperto, criou máquinas que fazem andar, mas agora não chega mais a lugar algum. Vida irônica, eu penso. E paro. De novo. Do meu lado, uma mulher me acotovela sem querer, mexendo na bolsa. Eu odeio a mulher. Eu queria que aquela mulher não existisse. Eu queria que ninguém existisse, que as pessoas de repente sumissem, todas à minha frente, de todos os carros, os que estão a pé também, para que eu pudesse fluir. Meu Deus! Eu não estou fluindo. Minha vida parece a condução em que me encontro: anda-e-para. Aquele cansaço, a vontade de chegar, a esperança de engatar... e para. De novo. (...) Nada rima com angústia, penso de repente. An-gús-ti-a. Não pode ser à toa que nada rima com ela. Angústia é dor cega e sem par, à procura de ancoragem na palavra....

31/10/2010

Eu acordei cansada. No espelho, um rosto com olheiras me encarava sem sorrir. Eu bem sabia que a mistura de álcool, dançar muito, comer pouco e dormir mal não poderia dar em boa coisa. Ao caminhar até a cozinha percebi que minhas pernas latejavam e meu reflexo não estava bom. Tremia ao pegar o copo d'água. "Tudo bem", eu pensava, "a festa estava boa e hoje é dia de almoçar comida de mãe". Eu só queria saber, então, porque o rosto com olheiras não conseguia sorrir, se o cansaço era apenas cansaço, se o que eu sentia era somente o resultado de quem está aproveitando seus dezenove anos de vitalidade e pura energia. "Uma boa noite de sono em sua cama fofa e, pronto, você já estará bem outra vez". Por que, dentro de mim, algo se recusava a acreditar? O telefone interrompeu meus pensamentos, a carona havia chegado. Viagem tranquila, apenas alguns imprevistos. Família esperando, tudo dentro do que eu imaginava que seria. Esbocei um sorriso. Por que, meu Deus,...