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Aquilo que fica

Tão vivo está em minha memória o choro transbordante de alívio de minha mãe, na manhã do dia 11 de junho do ano passado, quando recebera a notícia de que minha avó havia produzido uma significativa quantidade de urina, o que simbolizava que seus rins estavam funcionando - um indicativo vital naquele momento. A onda de esperança que nos invadira naquele momento, de tão intensa, provavelmente fora notada até aos olhos mais desatentos daqueles que passavam pela rua. Eu sentia meu coração se alargar e, mais e mais, agradecia, pedia, e acreditava que minha avó escaparia de mais uma intempérie imposta pela vida. Vida, sim; não morte. Simplesmente porque esta última palavra não era cogitada, não faria o menor sentido minha avó não escapar.

Nesse mesmo dia, li, do Fabrício Carpinejar, uma frase que dizia que "o alívio é o irmão triste da felicidade". E o pobre nem durou muito. Durante aqueles três dias (confesso que conferi no calendário - a mim pareceram séculos, milênios, eternidade) de espera torturante, essa havia sido a única notícia animadora. No dia 13 de junho, às 21:45, a voz que me falava ao telefone - tudo soava tão longe, tão irreal - contava aquilo a que meu pranto durante a tarde já havia se habituado: ela não iria mais voltar. A certeza da ausência e o "nunca mais" me esmagaram como se o mundo, pesando mil vezes mais, de repente caísse sobre mim. Não havia em minha alma lugar suficiente para abrigar tanta dor. Penso que, por alguns momentos, eu não existi realmente. Sem sentido, onde há de haver existência?

2011 foi o ano em que aprendi que sempre há aquilo que se vai. Consumidor incansável do eterno, como uma traça que nunca cessa de trabalhar, o tempo mostra para nós que o fio que sobra é o do efêmero. A todo momento estamos perdendo. Durante algum tempo após a partida de minha avó, passei a racionalizar a vida de uma maneira estranha até a mim mesma. Pensava que viver é isso mesmo - e só, que iremos rir algumas vezes, chorar outras tantas, gostar, desgostar, ganhar e perder - tudo havia sido tomado por um monótono ar de banalidade. Ora, porque, mesmo se acreditarmos, pedirmos, rezarmos, ou o que quer que seja desses atos ditados pela vívida esperança - motor dos nossos dias; não temos controle nenhum sobre a vontade imponderável da vida. Se tudo desemboca para o mesmo fim, ir para frente nem tinha muita graça, afinal. Minha alma estava com todas as portas e janelas fechadas para qualquer luz que tentasse entrar, tentando se sustentar em meio à enchente de tristeza que a havia inundado.

Hoje, ainda acredito que perdas não são exatamente superadas, de todo. Depois de tudo, acho que sempre existirá em mim um cômodo fechado aonde o sol não entra, que não pode ser reparado por nenhuma mudança ou construção - lá é onde vivem as ausências de que tanto padeço e ainda hei de padecer. Os três dias mais angustiantes que já vivi estão lá, em algum canto mofado. Mas não penso nisso com profundo pesar, ao contrário; penso com a serenidade de quem tem o resto inteiro de uma alma-casa voltada para o mundo. Mais do que aprender que sempre há aquilo que se vai, me dei conta, nesse ano que passou, de que sempre existe aquilo que fica. Estando a ausência doída de minha avó no cômodo escuro, a presença dela escancara todas as outras janelas e portas, ilumina tudo; quando me lembro de suas palavras, quando como angu com couve, quando me deparo com alguma simplicidade, mãe da vida; quando eu faço algum bem para alguém. Ela está viva em mim, e estará para sempre. Uma vez eu disse que a morte é um absurdo, porque tudo é vida onde a vida não está; hoje eu ainda concordo com isso, mas arrisco a acrescentar: ainda bem.

Nesse ano que se inicia eu só quero poder focar mais, muito mais, naquilo que fica. Se repararmos bem, há sempre um fundo de sentido em tudo o que fazemos. E por mais que o tempo leve de nós a certeza da eternidade, ele deixa aquilo que é, mesmo, para ficar nesse mundo finito. Enquanto vivermos, não será a efemeridade que acabará com isso. Sempre há aquilo que permanece por trás dos desentendimentos, dos desencontros, daquilo que não deu certo e, paradoxalmente, daquilo que se foi. Sempre há um alicerce firme por trás de tudo que está em movimento e inconstância. Se eu me atento a isso, posso resistir ao efêmero, se não, de nada me adiantaria a eternidade.

Hoje eu vejo que aquele instantezinho de esperança que eu e minha mãe tivemos, em meio ao caos daqueles dias, é o que simboliza a vida, afinal. Não, não temos controle sobre a imponência da realidade, e viver é isso mesmo - e só. No fim, a esperança acabou sendo vã, e meu coração se alargou inutilmente. Será mesmo? Aquela onda de alívio carregava muito significado, mostrava que mesmo que a realidade nos atentasse para um infeliz final, a gente esperaria com fé que ele fosse outro, pela importância majestosa e intransferível de minha avó em nossa vida. Não era tolice esperar: era viver. Mesmo que no fim ela tenha ido embora, o sentido fica. E, sem sentido, onde há de haver a existência?

Espero, tranquila, por mais um ano que chega, com os dois pés fincados no existir. A alma está limpa e arrumada para o que há de vir, e, vez ou outra, vou ao cômodo fechado me lembrar das dores que fazem parte de mim - só por alguns instantes, é claro, para ter a exata noção da beleza dos cômodos iluminados, através do contraste; para nunca perder de vista que a dor só dói porque há algo que importa, para nunca deixar passar o que importa. Se tudo desemboca para o mesmo fim, que eu consiga reinventar a graça de seguir frente; é o que espero de mim em 2012, e, de 2012, espero que, quando se for, deixe muito o que ficar.


Comentários

  1. Keep the light on... nos outros cômodos! =]
    Lindo, Marcelinha. Lindo mesmo...
    Vc me inspira! E me orgulha! Te amo!
    Beijo da sua amiga!

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